segunda-feira, 15 de outubro de 2007

VIAGEM AO PRINCÍPIO DO MUNDO (1997) de Manoel de Oliveira

No princípio, o silêncio. Epígrafe de Nietzsche para a tela escura: “Tornar-se mestre do caos em que estamos”. Os créditos e a afetuosa dedicatória à memória de Mastroianni, último filme do ator italiano com o diretor. A música pouco caracteriza este filme. Quando há, é dissonante. Dissonâncias é o que há no mundo e em cada um dos indivíduos. As memórias de Manoel, o diretor, as lembranças de Afonso, o ator, da memória do seu pai, português, que cruzou as montanhas de Espanha, não estabelecem ponte de contato. As aulas de história de Duarte e a displicente curiosidade da jovem Judite não se encaixam. Cada qual parece ligado a um tempo e a um momento, incongruentes entre si, fechados para o outro, mas harmoniosamente dispostos na viagem ao princípio do mundo.
A primeira tomada do filme é do asfalto, da estrada. Plano fechado. Ela se repete, mas não é a mais importante. Aliás, não há grandes recursos técnicos envolvidos na feitura da obra. Os personagens, que estão dentro do carro, são mostrados por uma câmera objetiva. Há o rosto marcado pela velhice de Manoel, a fisionomia contida de Afonso, a presteza de Duarte e a beleza de Judite. Todos eles, ora em silêncio, ora dialogando sobre histórias, reminiscências e lembranças, são marcados por um sentimento que se deslembra da realidade, ou seja, de saudade.
Quando saem do carro, a câmera os espera de fora. Nos planos abertos sempre estão presentes a natureza ou as construções antigas. As árvores, o Minho, o céu e as montanhas, o colégio de jesuítas, as pontes de outras eras, o Grande Hotel de Pezo e a escultura naif de Pedro Macau. Pontuando e costurando as imagens, Manoel de Oliveira, faz um passeio pelo tempo, que corrompe e transforma tudo em ruína, ao mesmo tempo que é duração, faz ficar o que passou e oferece uma resistência, ainda que mínima, à rapidez e à pressa que caracterizam o mundo contemporâneo.
Só o país da saudade para colocar no centro do turbilhão da indústria cinematográfica um realizador como Manoel de Oliveira. “Se a moda é a velocidade, eu filmo de maneira lenta”, diz o cineasta. A lentidão parece ser a forma revolucionária de viver num mundo regido pela pressa constante, na circulação excessiva em que saímos de um lugar em que não há nada para ser feito, rumo a outro, onde não há nada a fazer. É contra a febre da pressa Oliveira faz um filme aparentemente simples, filmado como um passeio, captando com sua câmera pessoas simples e lugares, memórias e lendas. Afinal, como diz Martin Buber “ser velho é uma coisa gloriosa quando se não desaprendeu o que significa principiar”.

Por Rodrigo Poreli, cineasta amador



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