sexta-feira, 24 de agosto de 2007

O HOMEM QUE AMAVA O CINEMA E A VIDA


François Truffaut foi o cineasta no qual o desejo de filmar foi tão absoluto que ele pode ser considerado como um dos artistas que mais viveu para o cinema, que mais o serviu com obras incomparavelmente belas.
O seu interesse pela arte cinematográfica revelou-se ainda muito cedo, na adolescência, quando depois de viver uma infância atribulada começou a freqüentar assiduamente a Cinemateca Francesa e alguns cineclubes. A partir de 1951, passou a integrar a redação da famosa revista de cinema, "Cahiers du Cinema". Lá conheceu figuras como André Bazin, Alain Resnais, Jean-Luc Godard e Eric Rohmer que influenciaram tanto a sua obra, quanto a sua vida. Todos eles participaram nos anos 60 do movimento artístico chamado "nouvelle vague" caracterizado pela inovação da linguagem fílmica e do fazer cinematográfico.
Neste período, Truffaut realizou “Os Incompreendidos” (1959), o seu primeiro longa-metragem e vencedor do prêmio de melhor direção no Festival de Cannes. Este filme é uma narrativa de natureza autobiográfica de um menino de doze anos em que o cineasta, por meio deste personagem, expõe toda a sua rebeldia e sinceridade, prolongando de certo modo, o seu trabalho de crítico.
Já com “Jules e Jim” (1962) o jovem diretor conseguiu impor um estilo pessoal e novo. Ele elaborou um discurso sentimental, intimamente ligado aos personagens que criou, seres tímidos, vulneráveis, secretos e ávidos de vida e pelos quais ele próprio se parece apaixonar e prender. Há uma preocupação estética em mostrar os seus conflitos interiores, seus amores e as suas ambivalências.
Estas duas obras-primas denotavam o apreço e reconhecimento que sentia por cineastas que o marcaram como Orson Welles, Claude Renoir, Roberto Rossellini, Alfred Hitchcock, Howard Hawks, e tantos outros. A sua paixão pelo cinema, no entanto, não se exprimiu unicamente pela admiração ou pela herança reconhecida de alguns dos grandes mestres universais da Sétima Arte. O cinema, para Truffaut é, antes de mais, uma forma de partilhar sonhos, sentimentos e emoções.
Daí, o seu notável instinto ao dar vida a ficções e personagens. Destaque para o seu alter-ego Antoine Doinel protagonizado sempre pelo ator Jean-Pierre Leaud. Atuando em cinco filmes (“Os Incompreendidos”, “Antoine e Colette” “Beijos Proibidos”, “Domicílio Conjugal” e “O amor em Fuga”), o seu personagem, às vezes, impulsivo ou melancólico se deparava com situações diversas e cotidianas em que o amor, a vida, a simplicidade e os relacionamentos eram sempre a tônica.
Percebe-se que o conjunto de sua obra revela-se prudente e calculada, mas sempre coerente e sincera. Depois de dirigir “O Garoto Selvagem” (1970), no qual interpreta um professor rígido, mas cheio de ternura, realiza em 1973, “A Noite Americana”, um dos mais claros momentos da sua inspiração. Com a mesma entrega com que sempre trabalhou, Truffaut dá vazão aos seus fantasmas e sonhos, sem, no entanto, nunca tocar o mau gosto, o pastiche ou o lugar-comum. Nos seus últimos filmes (“O Último Metro”, “A Mulher do Lado” e “De repente num Domingo”), realizados no início década de 80, nota-se a sua preocupação fundamental em temas com o amor e a liberdade, sentimentos tão caros à sua personalidade.
Assim, François Truffaut ao longo de sua vida e de suas obras buscou um cinema criativo, sensível e humano. Suas inovações não se encontram somente nos movimentos de câmera, na iluminação ou na cenografia. Elas se percebem na condução delicada da narrativa fílmica que retratou a vida e seus personagens com um olhar fresco, genuíno e emocionante. Este artista nos mostrou que a vida e principalmente o cinema podem ser difíceis, mas nunca deixam ser surpreendentes e acima de tudo, belos.

Por Rodrigo Poreli, cineasta amador

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