O cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard tem provocado até hoje uma profunda “fratura” na sétima arte. Tanto que o historiador do cinema Georges Sadoul definiu o seu cinema como "god-art". Com efeito, este cineasta desenvolveu um estilo altamente idiossincrático: uma espécie de colagem improvisada, na qual os enredos são retirados de temas e acontecimentos políticos, religiosos e sociais, combinados com comentários intelectuais, citações literárias, música erudita, ironias e piadas refinadas. Tudo reunido numa composição visual estonteante e transcendente.
Podemos dizer que “Je vous salue, Marie” é o mais comentado filme francês da década de 80. Muito criticado pela ortodoxia da Igreja Católica e por meios políticos mais moralistas e conservadores, esse filme foi acusado de difamar a religião cristã ao mostrar, por exemplo, cenas de nudez da atriz que interpreta Maria. Ao analisarmos o cinema de Godard na década de 80 podemos perceber que esse cineasta está preocupado com temas que dizem respeito a relação do homem consigo mesmo e este com a natureza que o envolve.
Podemos dizer que “Je vous salue, Marie” é o mais comentado filme francês da década de 80. Muito criticado pela ortodoxia da Igreja Católica e por meios políticos mais moralistas e conservadores, esse filme foi acusado de difamar a religião cristã ao mostrar, por exemplo, cenas de nudez da atriz que interpreta Maria. Ao analisarmos o cinema de Godard na década de 80 podemos perceber que esse cineasta está preocupado com temas que dizem respeito a relação do homem consigo mesmo e este com a natureza que o envolve.
Godard, como prólogo do “filme principal” exibe um pequeno curta chamado “O livro de Maria”. Este é uma reflexão poética a respeito da reação de uma menina de 9 anos em virtude do divórcio de seus pais. Com músicas de Chopin e Mahler esse filme-introdução nos faz pensar sobre a origem da vida, principalmente quando a pequena Maria parte um ovo, depois de dizer: “É impossível fazer uma omelete sem quebrar um ovo”.
Logo em seguida, inicia-se de fato “Je vous salue Marie”. A história do filme é de certa forma simples, mas muito singular. Em um subúrbio de Genebra, Maria trabalha em um posto de gasolina de seu pai e também joga basquete em uma equipe local. Em uma noite recebe a anunciação por um determinado “homem-anjo” chamado Gabriel, de que terá um filho. A partir disso, há uma aceitação gradual de Maria no que toca a sua missão de gerar uma criança. Todavia, seu namorado José é relutante em aceitá-la como “virgem” e portadora de uma criança que não foi concebida pela relação amorosa entre os dois namorados.
Paralelamente há outra história de uma moça chamada Eva que possui um caso com seu professor de Física. Esse é casado. Há discussões a respeito da origem do universo, e sobre o livre-arbítrio humano. A história de Maria com José e de Eva com seu professor são nitidamente contrapostas, como num espelho invertido. A medida que José aceita Maria, Eva e seu professor estão mais próximos de se separarem. Além disso, Godard também trata ao lado do tema exposto acima, da questão da Imagem e da Palavra inseridas no mundo em que vivemos. Qual é o poder da Imagem? Qual é a força da Palavra? Esse cineasta nos propõem, utilizando de símbolos da natureza, um renascimento da Imagem e uma reutilização da força da Palavra. Esses dois elementos são ao mesmo tempo transcendentes e imanentes. Contradizem-se e também se auto-constituem.
Podemos notar que o filme do começo ao fim é pontuado pela frase: “Naquele Tempo”. Há uma interposição de imagens da Lua, das estrelas, de campos floridos, do Mar, com músicas de Bach e do corpo nu de Maria, que é a fonte do qual emana a Imagem e também a Palavra. Assim, Godard faz de “Je vous salue Marie” uma obra-prima apreciada por poucos. A aceitação da nossa condição humana é realizada pela nossa disposição de reinventar o modo pelo qual direcionamos nossos olhos para o mundo e para as pessoas que estão ao nosso redor.
Rodrigo Poreli, cineasta amador
Rodrigo Poreli, cineasta amador
2 comentários:
Olá! Vi seu anúncio no blog da Paisà e estou visitando... Quando tiver mais tempo, explorarei mais seu blog... um abraço...
www.uniblog.com.br/deva_neios
Nada como análises feitas por um "Historiador" e cineasta!
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